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sábado, 28 de março de 2009

'' EMPREGAR DEFICIENTES ''



Há cerca de vinte anos atrás, o senhor Antunes trabalhava numa serração. Já tinha trabalhado em várias profissões e gostava daquilo que fazia. Foi então, que um trágico acidente com um serra eléctrica lhe levou o braço esquerdo.
O trauma psicológico foi enorme. Trata-se de uma pessoa que sempre usou as mãos naquilo que fazia - mãos habilidosas. Durante cerca de dois anos, perdeu o alento para a vida e não quis trabalhar. Um dia, pensou que tinha que reagir e mentalizou-se de que conseguiria fazer com um só braço aquilo que já muita gente não consegue fazer com os dois.
Conheci o Sr. Antunes tinha eu 10 anos. Estávamos com um problema no autoclismo de casa e já tinhamos sido enganados por um canalizador que deixou tudo na mesmo. Foi então que a minha mãe resolveu pedir ao Sr. Antunes, que trabalhava na mesma escola que ela (ESEAF), que fosse lá a casa ver se conseguia. Explicou logo que ele não tinha um braço, e que era impressionante a maneira como trabalhava, servindo-se de todo o corpo para ajeitar, segurar coisas, etc. O problema foi resolvido com rapidez e eficiência. Dali em diante, qualquer coisa que se estragava, era a ele que recorriamos.
Hoje, o Sr. Antunes, é um exemplo de superação de barreiras físicas e psicológicas. Mudou de trabalho, para a Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto (ESEBB), de modo a ficar mais perto de uma casa que construiu - sózinho.
Na ESEBB, está no quadro como carpinteiro, mas os seus talentos vão muito além - pedreiro, marceneiro, electricista e arranja todo o tipo de coisas - é o perfeito handyman, imprescindível na instituição.
De facto, empregar deficientes compensa. Esta é uma realidade de hoje no mundo empresarial. Apesar de serem poucos os patrões que dão oportunidades laborais a cidadãos com deficiência ou incapacidade, aqueles que o fazem são unânimes. Empregar deficientes tem muitas mais vantagens do que dos subsídios aos quais as empresas têm direito.
Dadas as dificuldades do mercado de trabalho, acrescidas para o caso de pessoas deficientes, aqueles que têm uma oportunidade não querem desiludir o seu empregador: são os primeiros a disponibilizarem-se para trabalhar aos sábados ou gerir picos de trabalho
as empresas, além de melhorarem a produtividade, ganham o respeito dos clientes e a admiração dos funcionários
o absentismo é quase inexistente
orgulho e fidelidade à empresa
transmite boa imagem para o exterior (marketing social) um outro exemplo de marketing social é o facto da cadeia de restaurantes McDonald's, em todo o mundo, empregar negros, asiáticos, etc.
“(...) a recompensa pode ir muito além do consolo moral de se praticar um acto socialmente útil... Não é por filantropia ou miserabilismo que emprego deficientes. É por pura vantagem competitiva."
Ernani Gonçalves, gerente da Silvex

"Já temos deficientes aqui a trabalhar desde há muitos anos. Eram dois surdos-mudos. Agora já só temos um. Na altura em que os empregámos, ainda não havia subsídios. Fizemo-lo não por caridade mas por acreditarmos no seu desempenho. Nunca chegámos a pedir apoios, porque sempre foram vistos como trabalhadores normais e parece-me um paradoxo estar a receber um subsídio por perda de produtividade por um trabalhador dos mais produtivos."
Maria Isabel Antunes, Tipografia Comercial

“Os empresários desconhecem as verdadeiras capacidades de um deficiente. Pô-los à prova é um exercício que poucos estão preparados para fazer. (...) na maioria das vezes tratam o deficiente com excesso de zêlo, numa atitude paternalista. Eles detestam isto. Soa a (...) caridadezinha piedosa.”
Gonçalo Macedo, director de recursos humanos da Sonafi

Dados do INE por sector e por deficiência
Download: gráfico em formato Excel (Office97)
Existem vários sistemas de apoio ao emprego de deficientes.

Veja um apanhado dos mais relevantes aqui mesmo.
Apesar dos apoios e das boas prestações, raros são os empresários que apostam em deficientes e nem todos os incapacitados têm boas habilitações literárias. Para inverter esta tendência foi criada a Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã (ARCIL).

Veja o que apurámos sobre a ARCIL.


"Se tiverem ferramentas para trabalhar e condições humanas adequadas, os deficientes são tão bons ou melhores profissionais(...) São mais empenhados, têm amor à camisola e trabalham mais."
Rui Antunes, sociólogo da ACAPO

Este é um exemplo de sucesso daquilo que pode ser feito. Contudo, outros projectos houve condenados à extinção por falta de apoios do estado:
Centro de Trabalho Protegido da Venda nova
Centro de Formação de Artes Gráficas e Multimedia
Deficoop - cooperativa dos deficientes de Viseu
Mas a realidade actual diz-nos que apenas uma pequena minoria consegue arranjar emprego. Vejamos a situação típica de um deficiente desempregado:
Muitos deficientes vivem da esmolas;
Normalmente o único rendimento fixo que estes têm é a pensão social de 22 contos;
Os projectos que estes porventura teriam para o futuro, são diluídos na tristeza e na miséria;
A génese de uma sensação de exclusão social;
A redução alarmante dos níveis de auto-estima;
Uma alimentação desequilibrada, acompanhada por más condições de higiene, propícias ao aparecimento de doenças infecciosas graves;
Surgimento de problemas psíquicos que agravam ainda mais o estigma seja ele qual for;
O endividamento
A ideia de Eduardo Botelho era haver um contingente especial para o acesso dos deficientes à função pública. Os benefícios fiscais e monetários não chegam. Claro que isto nao seria para todos, mas sim para aqueles que tiverem elevado grau de formação académica e profissional, o que constitui um universo muito pequeno e não seria uma grande carga financeira para o Estado. Isto seria bom até para as empresas privadas terem noção das capacidades dos, aparentemente, incapacitados. Contudo, "não quero dizer com isso que não haja deficientes incapazes. (...) Provavelmente são a maioria. E isto porquê? Porque muitos deles não têm formação (...). (...) se um deficiente estiver desempregado, este vai ter que ser auxiliado pela Segurança Social, através da (...) pensão social. (...) vai posicionar-se como mero consumidor e não como um produtor. (...) considerando que é detentor de um curso superior, está-se a queimar recursos da sociedade e a desperdiçar todo o investimento que o Ministério da Educação fez na sua educação."
Em jeito de conclusão, é importante referir que, no que toca a auxílio a deficientes, todos os políticos são unânimes em boas intenções. Por vezes, não passam de palavras. Outras vezes, ficam consagradas em leis e até na própria constituição, mas não são postas em prática.
Curioso é que, mesmo numa altura em que muitos subsídios da União Europeia destinados a esta área são anunciados, sejam cessados apoios a instituições como as referidas acima.
Links relacionados
(c)1998 João Campos

Fonte: Empregar Deficientes Compensa?s

4 comentários:

  1. Horta: É impressionante a história que contas. Quando uma pessoa quer mesmo uma coisa, consegue!

    Páscoa Feliz
    Susana

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  2. Olá Susana,

    Obrigado pelo teu comentário.
    Mas mesmo quando uma pessoa quer, tem que ter mais algo, força de vontade e apoio, porque sem isso, será impossível para qualquer deficiente enfrentar as barreiras que se opoem a elas...
    Tem muitos que tentam, mas as burocracias e condições mais que deficeis tornam por vezes uma montanha a transpor, por isso, muitos ficam no esquecimento.

    Volta sempre.
    Bj

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  3. Como tudo para as pessoas com deficiência é muito difícil, quando lhes é dada uma oportunidade, a produtividade deles é maior do que os não deficientes. É preciso abrir mais vagas no mercado de trabalho para as pessoas com deficiência. Um abraço. Drauzio Milagres.

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  4. É isso Drauzio, quando a oportunidade é dada, mesmo com as limitações que possamos ter, damos o nosso melhor contributo, só que os chamados 'normais' não encaram a realidade, e daí, muitas das vezes não se dá a devida atenção aos que querem voltar aos mundo dos normais.
    O mercado está aberto aos ditos deficientes, só que o preconceito é enorme e não recuam dele.

    Obrigado por seu comentário, volte sempre.

    Abraço

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